Impedimento semiautomático: como a tecnologia está transformando o futebol?

Impedimento semiautomático: como a tecnologia está transformando o futebol?

Introdução

A tecnologia está presente em diversas áreas da nossa vida, e seria impossível imaginar que ela ficaria de fora do esporte. No futebol, por exemplo, os avanços tecnológicos têm contribuído para transformar a maneira como o jogo é acompanhado, arbitrado e analisado. E essa transformação vai muito além de computadores e câmeras de alta resolução: algumas inovações, hoje consideradas comuns, mudaram profundamente a dinâmica do esporte. Um exemplo são os cartões amarelos e vermelhos, introduzidos na Copa do Mundo de 1970 para facilitar a comunicação das punições entre árbitros e jogadores de diferentes nacionalidades.

Outra grande inovação foi a implementação do árbitro assistente de vídeo, conhecido como VAR (Video Assistant Referee), na Copa do Mundo de 2018. Desde então, a arbitragem passou a contar com recursos tecnológicos para revisar lances decisivos, como gols, pênaltis e expulsões. E, à medida que essas ferramentas evoluem, novas soluções surgem para tornar as decisões mais rápidas e precisas. Uma delas é o impedimento semiautomático, tema deste artigo.

Mas, antes de entender como essa tecnologia funciona, precisamos relembrar a regra do impedimento. De maneira simplificada, um jogador pode estar em posição de impedimento quando, no momento em que um companheiro toca ou joga a bola, ele está no campo de ataque e mais próximo da linha de gol adversária do que a bola e o penúltimo adversário, considerando as partes do corpo que podem ser utilizadas para marcar um gol. Entretanto, estar nessa posição não é uma infração por si só: o impedimento só é marcado quando o jogador participa ativamente da jogada, conforme os critérios da regra. Existem também exceções, como receber a bola diretamente de um tiro de meta, lateral ou escanteio.

A dificuldade está justamente em avaliar a posição dos jogadores no instante exato em que a bola é tocada. Em lances muito disputados, uma diferença de poucos centímetros pode determinar se um gol será validado ou anulado. É nesse cenário que entra o impedimento semiautomático, uma tecnologia que combina câmeras, sensores e inteligência artificial para auxiliar a arbitragem. Utilizada na Copa do Mundo de 2022, essa solução representa mais um passo na integração entre engenharia e futebol. Mas, afinal, como ela funciona?

A aquisição dos dados

Para compreender o funcionamento do impedimento semiautomático, o primeiro passo é entender como os dados são coletados. A tecnologia utilizada no Campeonato Brasileiro apresenta diferenças em relação àquela empregada na Copa do Mundo de 2022, principalmente na quantidade de câmeras e na utilização de sensores na bola.

No Brasileirão, o sistema implementado em 2026 conta com 28 a 32 câmeras dedicadas, dependendo da infraestrutura de cada estádio. Elas capturam imagens em resolução 4K, a 100 quadros por segundo, permitindo acompanhar os movimentos dos jogadores e da bola com elevado nível de detalhamento. Já o sistema utilizado na Copa do Mundo de 2022 contava com 12 câmeras dedicadas ao rastreamento, enquanto a tecnologia apresentada pela FIFA para torneios posteriores passou a utilizar 16 câmeras. Essas diferenças mostram como os sistemas evoluem e podem adotar soluções técnicas distintas para alcançar o mesmo objetivo.

Além das câmeras, outro recurso merece destaque: a bola conectada, equipada com um sensor eletrônico. Esse componente foi utilizado na Copa do Mundo de 2022, mas não faz parte do sistema de impedimento semiautomático adotado no Brasileirão em 2026. Portanto, embora ambos os sistemas utilizem o rastreamento dos jogadores, existem diferenças importantes na forma como identificam o momento do toque na bola.

Essa informação é fundamental porque a regra do impedimento exige a análise da posição dos jogadores no instante em que a bola é jogada por um companheiro. Afinal, não basta saber onde cada atleta está: é necessário identificar o momento exato em que a jogada se inicia.

Na tecnologia de bola conectada, essa tarefa é auxiliada por um sensor chamado IMU (Inertial Measurement Unit, ou Unidade de Medição Inercial). Ele combina acelerômetros e giroscópios para registrar movimentos e variações de aceleração da bola. Os dados são transmitidos ao sistema de vídeo em tempo real, com uma frequência de aproximadamente 500 registros por segundo, permitindo identificar com grande precisão o instante do contato com a bola.

Bola da Copa com Chip Integrado.

Esse recurso também pode auxiliar na análise de outros lances, como possíveis toques de mão, nos quais identificar se houve contato com a bola pode ser decisivo para a arbitragem.

Um exemplo da importância desse tipo de informação é a análise de lances em que um toque muito sutil altera o desenvolvimento de uma jogada. Em situações assim, o contato pode ser difícil de perceber apenas pelas imagens convencionais. A combinação entre os dados do sensor e as imagens das câmeras permite que a equipe de arbitragem examine o lance com maior precisão.

Assim, a aquisição dos dados constitui a primeira etapa do processo: as câmeras acompanham os jogadores e a bola, enquanto os sensores, quando disponíveis, fornecem informações adicionais sobre os movimentos e os contatos. Mas como transformar esse grande volume de informações em uma decisão que precisa ser tomada em poucos segundos?

Processamento dos dados

Se todas as imagens e informações coletadas fossem analisadas manualmente, quadro a quadro, o trabalho da equipe de arbitragem seria muito mais demorado. Afinal, estamos falando de milhares de imagens e de uma grande quantidade de informações sobre os movimentos dos jogadores e da bola. É nesse ponto que entram os sistemas computacionais e os algoritmos de inteligência artificial.

Por meio de técnicas de visão computacional, o sistema identifica os jogadores, acompanha seus movimentos e estima a posição das partes do corpo relevantes para a regra do impedimento. Essas informações são combinadas com os dados referentes à bola para reconstruir o cenário da jogada e identificar possíveis situações irregulares.

No sistema utilizado pela FIFA em 2022, por exemplo, as câmeras rastreavam 29 pontos do corpo de cada jogador, incluindo as partes relevantes para a determinação do impedimento. Com esses dados, o sistema conseguia calcular a posição dos atletas e gerar um alerta automático quando identificava uma possível infração.

É importante destacar que a inteligência artificial não substitui completamente a análise humana. Ela automatiza tarefas que exigiriam muito tempo e atenção, oferecendo informações precisas para que os árbitros possam avaliar o lance. A equipe responsável pelo VAR verifica os dados apresentados pelo sistema antes de confirmar a decisão.

Depois dessa análise, as informações podem ser utilizadas para produzir reconstruções tridimensionais (3D), que representam a posição dos jogadores no momento decisivo da jogada. Essas imagens, frequentemente exibidas durante as transmissões esportivas, ajudam a explicar ao público por que um gol foi validado ou anulado.

Reconstrução 3D do Impedimento

Dessa forma, o processamento de dados transforma imagens e medições em informações úteis para a arbitragem, reduzindo o tempo necessário para analisar lances difíceis e tornando as decisões mais consistentes.

Por que semiautomático?

Diante de tantas tecnologias, surge uma pergunta: se o sistema consegue identificar possíveis impedimentos automaticamente, por que ele é chamado de semiautomático?

A resposta está justamente na participação humana durante o processo. Embora os algoritmos sejam capazes de rastrear os jogadores, identificar o momento do toque na bola, quando a tecnologia disponível permite, e indicar possíveis infrações, a equipe de arbitragem continua responsável por validar as informações e confirmar a decisão.

No sistema da FIFA, por exemplo, os árbitros de vídeo verificam o momento do contato com a bola e a linha de impedimento sugerida pelo sistema. Após essa validação, a decisão é comunicada ao árbitro em campo, que mantém a responsabilidade pela decisão final.

Portanto, o termo semiautomático não significa que a tecnologia seja pouco avançada. Pelo contrário: ele indica que parte significativa do trabalho de análise é automatizada, enquanto a supervisão humana continua sendo essencial. Essa combinação permite aproveitar a velocidade e a precisão dos sistemas computacionais sem retirar dos árbitros a responsabilidade pela aplicação das regras do futebol.

Conclusão

A implementação do impedimento semiautomático representa um avanço importante na utilização da tecnologia no futebol. Ao combinar câmeras de alta resolução, rastreamento dos jogadores, processamento computacional e, em determinados sistemas, sensores instalados na bola, essa inovação permite analisar lances complexos com maior rapidez e precisão.

Os primeiros resultados da tecnologia no Campeonato Brasileiro, em 2026, reforçam esse potencial. Segundo dados divulgados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), as cinco checagens realizadas na estreia do sistema tiveram tempo médio de 47 segundos, demonstrando a capacidade de agilizar a análise dos lances. Embora os resultados iniciais sejam promissores, a avaliação de seu desempenho deve considerar também a precisão das decisões e a experiência acumulada ao longo da competição.

É claro que a tecnologia não elimina todas as polêmicas. O futebol envolve interpretações das regras, decisões tomadas em situações muito específicas e, naturalmente, a paixão das torcidas. Mesmo quando há dados e imagens para sustentar uma decisão, é possível que surjam questionamentos.

Gol polêmico anulado da Croácia com toque percebido apenas pelo chip da bola.

Ainda assim, assim como aconteceu com o VAR, o impedimento semiautomático mostra como a inovação tecnológica pode contribuir para a evolução do esporte. Mais do que substituir procedimentos manuais, essas ferramentas auxiliam os profissionais da arbitragem a tomar decisões fundamentadas em informações cada vez mais precisas.

A integração entre engenharia, computação e futebol demonstra, portanto, que a tecnologia pode ultrapassar os limites das fábricas e dos laboratórios, chegando também aos gramados. E essa é apenas mais uma das maneiras pelas quais a engenharia transforma atividades presentes no nosso cotidiano.

Artur Tafuri