O Encarecimento dos Jogos
Introdução
Com o clima de ansiedade gerado pelo eventual lançamento de GTA VI, um dos títulos mais esperados da história dos videogames, muitas pessoas afirmam que estão dispostas a investir todo seu dinheiro para adquirir o jogo. Ao ouvir isso, provavelmente surge a nostalgia da época em que comprar um jogo não exigia grandes economias ou loucuras financeiras.
Mas quando foi que a diversão dos finais de semana se tornou tão cara? É isso que iremos abordar neste texto sobre o encarecimento dos jogos!
Os jogos de hoje
Os jogos podem ser divididos de acordo com o orçamento destinado à sua produção. Nessas classificações não oficiais, temos as categorias AAA, AA, A e Indies. Resumidamente, grandes produções, como GTA, pertencem à categoria AAA (ou Triple A), enquanto jogos desenvolvidos por equipes menores e empresas independentes, como Undertale, são chamados de jogos indies.
A título de comparação, o primeiro teve seu custo de produção estimado entre 1 e 2 bilhões de dólares, enquanto o segundo custou “apenas” 51 mil dólares, valor arrecadado por meio de uma campanha de financiamento.
Obviamente, esse custo de produção acaba refletindo diretamente no preço final para o consumidor. Utilizando os mesmos dois exemplos, temos que a versão básica de GTA VI custa R$ 449,90, enquanto Undertale, na época de seu lançamento, em 2015, custava apenas R$ 19,99. É uma diferença enorme, mesmo considerando a inflação do período.

Esse custo elevado pode ser visto como um dos “vilões” do aumento dos preços para os gamers. Atualmente, o investimento médio nas maiores produções gira em torno de US$ 300 milhões, tornando cada vez mais difícil que esses jogos cheguem ao mercado por preços baixos.
O efeito colateral desse encarecimento das superproduções é uma onda de alta nos preços dos jogos AAA. Como dito anteriormente, os títulos de maior orçamento se consolidaram nessa categoria e, consequentemente, estabeleceram um novo padrão de preço. Recentemente, um aumento desse valor assustou os consumidores: em 2023, os jogos Triple A passaram de US$ 60 para US$ 70.
Pode parecer um aumento pequeno, mas ele fez com que jogos como FIFA passassem a ter um preço cheio ainda maior, algo que muitos fãs consideram um absurdo, já que a evolução de uma edição para a seguinte nem sempre justificaria o encarecimento.
Além disso, um aumento de US$ 10 pode parecer pouco para os estadunidenses, mas, olhando pela ótica brasileira, esse valor se torna bem mais significativo. Considerando, em média, US$ 1 equivalente a R$ 5, um aumento de US$ 10 representaria R$ 50 a mais no preço. Isso pesa muito mais no bolso dos brasileiros. E, a cada aumento do valor da moeda norte-americana, os preços por aqui também são diretamente influenciados.

O efeito mental da época da pirataria
Mas nem tudo é exatamente como parece. Em nossas cabeças, provavelmente os jogos estão absurdamente mais caros do que eram durante a nossa infância, especialmente na época do PlayStation 2. Isso, porém, não necessariamente corresponde à realidade.
Um jogo original naquela época custava cerca de R$ 150 a R$ 200 e, considerando a inflação, o aumento dos preços não foi tão relevante. Então, por que temos uma sensação tão acentuada de que os jogos ficaram mais caros?
Além do fato de que atualmente o dinheiro sai do nosso próprio bolso, e não dos nossos responsáveis, tivemos, no início dos anos 2000, um verdadeiro boom dos jogos piratas, principalmente no Brasil. A era do famoso “3 por 10” criou no imaginário popular a ideia de que jogos eram extremamente baratos.

Essa impressão, porém, é uma memória influenciada pela situação do mercado de games naquela época. Hoje, os jogos piratas se tornaram mais escassos nos consoles, enquanto os sistemas de verificação dos servidores conseguem impedir que pessoas sem uma cópia original tenham acesso a determinados recursos.
As versões Deluxe, DLCs e microtransações
Além disso, hoje existem diversos artifícios que podem aumentar o preço final agregado de um jogo. Entre eles, estão as DLCs, as versões especiais e as microtransações.
As DLCs são conteúdos adicionais normalmente lançados após o lançamento oficial do jogo. Elas podem trazer expansões na história, novos personagens, missões ou modos de jogo. Seu principal objetivo é manter o jogo ativo ao longo dos anos, aumentando sua base de jogadores e mantendo o conteúdo atualizado.
Um exemplo é Dragon Ball Xenoverse 2, lançado em 2016 e que recebeu sua última atualização em 2026. As DLCs, por si só, não são necessariamente um problema. O que incomoda os jogadores é o exagero e o preço cobrado por cada conteúdo, que muitas vezes não parece condizente com aquilo que é acrescentado ao jogo.

Outro recurso que está se tornando cada vez mais frequente são as microtransações. Muitas vezes, até mesmo jogos gratuitos conseguem faturar por meio de compras internas que não são necessariamente obrigatórias para seguir a história ou vencer partidas online.
Roupas diferentes para os personagens, as famosas “loot boxes” — caixas ou pacotes com recompensas surpresa — e outros itens estéticos estão entre as compras mais comuns nesse modelo. Dessa forma, os jogadores acabam gastando muito mais do que o valor inicial do jogo, mas de maneira gradual, o que pode tornar esses gastos menos perceptíveis.

Por fim, existem as versões especiais dos jogos. A famosa edição Deluxe normalmente oferece acesso antecipado, recompensas exclusivas ou até mesmo acesso futuro às DLCs sem a necessidade de comprá-las separadamente. Essas versões, porém, costumam ter um preço muito elevado em comparação à edição original.
Por exemplo, o EAFC 27 será comercializado em três faixas de preço diferentes. A versão padrão custa R$ 349,00, enquanto a Ultimate Plus chega a R$ 749,00. Essa diferença chama a atenção dos consumidores e assusta quando aparece nas notícias.
Conclusão
Os jogos realmente ficaram mais caros ao longo do tempo, mas a sensação que temos desse aumento acaba sendo influenciada e, em alguns casos, exagerada por fatores externos que afetam nossa percepção.
Além dos pontos citados ao longo do texto, os jogos digitais estão cada vez mais comuns. Com isso, surge também um debate sobre a própria posse do jogo: afinal, quando compramos uma versão digital, estamos realmente adquirindo o produto ou apenas uma licença para utilizá-lo?
Isso, somado aos planos e assinaturas necessários para acessar determinados servidores e recursos online, aumenta a sensação de que estamos pagando cada vez mais caro pelo lazer de jogar videogames.
No fim, o encarecimento dos jogos não pode ser explicado por apenas um fator. O aumento dos custos de produção, a valorização do dólar, as edições especiais, as DLCs e as microtransações se somam a uma mudança na própria forma como consumimos videogames. E talvez seja justamente essa combinação que faça a diversão dos finais de semana parecer cada vez mais distante daquela época em que um simples “3 por 10” era suficiente para garantir horas de diversão.