Movimentos negacionistas ao longo da história
Introdução
A questão da vacinação foi um tópico bastante discutido no auge da pandemia do COVID-19 e, mesmo depois 4 anos do fim da pandemia, esse tópico ainda gera muita desconfiança em uma parcela da população seja por ignorância no assunto, ou até mesmo por questões socioculturais, políticas e religiosas. Os grupos contrários a esse, mas também à evolução tecnológica de um modo geral, são denominados de negacionistas ou anticientificistas. Estes são conhecidos por negar a ciência e disseminar a desinformação, impactando negativamente a vida de milhares de pessoas. Tal situação não é singular ao século XXI, ocorrendo diversas vezes ao longo da história. Destarte, a sociedade sofre com os efeitos das ideologias difundidas por grupos antitecnológicos há séculos, confira alguns deles e como eles surgiram.
Do início da Idade Moderna ao Brasil do século XX: os impactos da desinformação
Iniciando as observações no começo da Idade Moderna, a Igreja Católica ainda era principal instituição política e informacional da época, que invalidou os estudos astronômicos de Copérnico e de Galileu que abordavam o heliocentrismo. Na época, o modelo defendido pela instituição era o geocentrismo, porque esta teoria estava mais de acordo com os dogmas católicos. O fato de Copérnico ter divulgado os seus estudos nos seus últimos dias de vida e Galileu ter sido perseguido, sentenciado e coagido a se redimir com a Igreja por ter publicado a sua pesquisa, reforça a influência da religiosidade na vida das pessoas naquele tempo e como a pesquisa científica foi, de certa forma, freada por um grupo que se recusava a aceitar a verdade.
Já na Revolução Industrial Inglesa, a intensificação do maquinário nas fábricas gerou descontentamento de grande parte dos trabalhadores na época, ocasionando na criação do Movimento Ludista. Os chamados ludistas tinham medo de perder seus empregos e, por essa razão, destruíram violentamente cerca de 30% das máquinas da Inglaterra na época. Vale ressaltar que no início da industrialização os salários se tornaram precários e a jornada de trabalho ficou mais longa, que impulsionaram os empregados a culpar a industrialização pelas péssimas condições trabalhistas. Esses fatos em análise demonstram que o verdadeiro culpado pelas más condições de vida não foi a industrialização em si, mas a falta de regulamentação e de leis trabalhistas que surgiram muito tempo depois. Por fim, temos que a paralisação de fábricas provocada pelo maquinário danificado ocasionou no atraso da produção, nos desestímulos ao investimento tecnológico, além de difundir uma resistência à tecnologia na sociedade.
No apogeu da Guerra Fria, a corrida espacial representou um período de intenso avanço científico e tecnológico, marcado pela disputa entre Estados Unidos e União Soviética pela supremacia política e ideológica. Nesse cenário, a chegada do homem à Lua, em 1969, simbolizou não apenas uma conquista científica, mas também uma demonstração de poder estratégico norte-americano. Entretanto, o surgimento de teorias que negam o pouso lunar reflete a desconfiança de parte da sociedade diante do uso político da ciência e da tecnologia. Impulsionados pelo clima de rivalidade internacional, pela propaganda ideológica e pela limitada difusão de informações confiáveis na época, alguns indivíduos passaram a questionar a veracidade do feito, atribuindo-o a uma suposta manipulação governamental. Dessa forma, as pessoas começaram a questionar a veracidade da ciência, fomentando o negacionismo.
Esse tipo de acontecimento também está presente no Brasil do século passado com a Revolta da Vacina, que ocorreu no Rio de Janeiro, em 1904. Nessa época o governo de Rodrigues Alves promoveu um projeto de urbanização intensa na cidade a fim de que se parecesse com os grandes centros urbanos europeus. Isso foi realizado através da demolição de cortiços, ocasionando no deslocamento de famílias de baixa renda e por um plano para melhorar a saúde pública que envolvia a vacinação compulsória da varíola aos cariocas. Dessarte, a oposição do governo de Alves incentivava rebelião da população contra a medida ao sugerir que a vacinação era uma “desculpa” para os profissionais da saúde tocarem suas esposas e filhas, gerando um alvoroço na população. O autoritarismo por parte do governo, as reformas urbanas, a disputa política e o desconhecimento científico foram fatores propulsores para a realização de protestos intensos seguidos de uma violenta repressão por parte do governo. Esse episódio levou à suspensão temporária da vacinação obrigatória, retardando o combate a doenças, neste caso, a varíola, além de que as medidas autoritárias aprofundaram a desconfiança das camadas populares em relação ao governo e à ciência.
Negacionismo na Era Digital
O contexto informacional que estamos vivendo é marcado pelo fácil acesso à informação, sendo essa verdadeira ou falsa. A ausência de filtros rigorosos e o uso de algoritmos que priorizam engajamento favorecem a propagação de notícias falsas, teorias conspiratórias e discursos sensacionalistas, que muitas vezes se sobrepõem a dados científicos e fontes confiáveis, propulsionando os surgimentos de grupos negacionistas na atualidade. Essa situação ocasiona em um regresso científico, visto que temas já comprovados ainda precisam ser debatidos em detrimento de novas descobertas.
De forma semelhante à da época da Guerra Fria, atualmente, o terraplanismo pode ser compreendido como uma continuidade desse fenômeno de negação científica, assim como ocorreu com as teorias que contestam a chegada do homem à Lua durante a corrida espacial. Em um contexto marcado pela ampla circulação de informações nas redes sociais, grupos passaram a questionar consensos científicos consolidados, como o formato esférico da Terra. Assim como no negacionismo lunar, o terraplanismo não surge da ausência de evidências, mas da desconfiança nas instituições científicas, nos governos e nos meios de comunicação. Essa descrença é, muitas vezes motivada pelas crenças individuais e pelo contexto social no qual o negacionista está inserido. Por fim, tais movimentos negacionistas contribuem para o enfraquecimento do pensamento científico na sociedade contemporânea, estimulando a resistência ao conhecimento e colocando em risco o desenvolvimento tecnológico e social.
Uma situação análoga à Revolta da Vacina foi a pauta da vacinação em 2020, sobre a necessidade ou não de se vacinar contra o coronavírus. É possível observar que, infelizmente, mesmo um século depois, divergência política e a falta de informação dos brasileiros não teve uma grande evolução: as fakes news ainda tem grande voz na formação de conhecimento da população em detrimento do conhecimento de cunho científico. Em 2026, mesmo com o fim da pandemia, ainda há dúvidas sobre o benefício da vacinação no combate a pandemia. Em uma recente notícia do G1, uma especialista afirma que “A vacina foi o divisor de águas para se chegar nesse momento de imunidade híbrida com muito menos gravidade, com muito menos óbitos e muito menos casos graves”. Por questões políticas e ideológicas, muitos rebatem essa afirmação, negando o papel do avanço científico no combate à pandemia e na melhora da qualidade de vida das pessoas.
Conclusão
Portanto, esse cenário no mundo atual demonstra que o problema central não é o avanço tecnológico ou científico em si, mas a dificuldade de acesso a informações de qualidade e a falta de educação científica crítica. Essa situação pode ser revertida com um investimento mais alto em educação midiática e científica, desde a escola, para que os indivíduos desenvolvam pensamento crítico, saibam verificar fontes, identificar fake news e compreender o método científico. Além disso, políticas públicas e legislações adequadas, aliadas à participação ativa da sociedade, são essenciais para promover um ambiente informacional mais ético. Essa seria uma possibilidade de reduzir os impactos da desinformação e fortalecer o senso crítico das pessoas.