Impactos da Tecnologia no Desenvolvimento da Sociedade

Impactos da Tecnologia no Desenvolvimento da Sociedade

Muitas vezes, ao acabar de assistir a um “Reels” do Instagram, fechamos o aplicativo apenas para abri-lo novamente. O que pode parecer apenas uma ação sem sentido é a prova viva de que a tecnologia e os meios digitais já se inseriram de forma mutualística na sociedade, gerando uma dependência perigosa entre as pessoas e os dispositivos. Essa simbiose pode ser a chave para entender como a sociedade está caminhando por rumos preocupantes com o avanço das tecnologias.


A cada geração que passa, a tecnologia está mais conectada à sociedade. Provavelmente você já se deparou com uma criança que não larga o celular. Mas, para além dos mais novos, também já deve ter percebido que a sua geração não se desliga das redes, mesmo em momentos nos quais elas não são necessárias. E isso não é apenas uma percepção: são dados. Pesquisas indicam que cerca de 50% das crianças de até 5 anos no Brasil já utilizam dispositivos eletrônicos todos os dias. Além disso, estudos mostram que o uso do celular por parte dos pais impacta diretamente a presença e o desenvolvimento dos filhos.


Com pais conectados e filhos viciados, como a nova geração está se saindo nos principais índices de desenvolvimento social na atualidade?

Diversão em família ou foco no celular?

DESENVOLVIMENTO ACADÊMICO

O uso exacerbado da tecnologia tem afetado diretamente os índices de desenvolvimento acadêmico de crianças e adolescentes. E esses impactos já vêm sendo medidos e indicam preocupação com o futuro da sociedade.

Algo extremamente alarmante é o fato de a geração Z apresentar um índice nunca antes visto na história: uma diminuição do QI em comparação com a geração anterior. Pelo menos é isso que indicam estudos realizados em países que possuem outros indicadores relativamente estáveis, como nutrição, saúde e educação. Neles, os conhecidos como “nativos digitais” (aqueles que já nasceram imersos em tecnologia) estão apresentando uma reversão do efeito Flynn. Essa teoria indica que as novas gerações apresentam melhores níveis de QI em comparação com as anteriores, devido aos avanços em índices básicos de desenvolvimento humano, como escolaridade e saúde. Porém, com os novos resultados, essa inversão preocupa — e muito.

Efeito Flynn.

O neurocientista Michel Desmurget aponta as telas e os meios digitais como os possíveis vilões responsáveis por essa triste reversão:

“As causas também são claramente identificadas: diminuição da qualidade e da quantidade das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional; diminuição do tempo dedicado a outras atividades mais enriquecedoras (lição de casa, música, arte, leitura etc.); perturbação do sono, que é quantitativamente reduzido e qualitativamente degradado; superestimulação da atenção, levando a distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade; subestimulação intelectual, que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial; e o sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal, influencia a maturação cerebral.”

Se em países com educação consolidada esses dados já preocupam, em lugares como o Brasil, onde o acesso ao estudo e a valorização do ensino são deficitários, a cautela deveria ser redobrada. Análises indicam que, no Brasil, crianças que usam dispositivos todos os dias têm uma avaliação 11 pontos menor na compreensão de números e medidas e 10 pontos menor em vocabulário do que aquelas que não utilizam dispositivos diariamente. Em comparação com outros países, a pesquisa mostrou que o raciocínio matemático das crianças brasileiras ficou 44 pontos abaixo da média.

Michel Desmurget, neurocientista.

ANSIEDADE E DEPRESSÃO

Para além da primeira infância e do desenvolvimento estudantil, o avanço da tecnologia também é apontado como um dos principais responsáveis pelo aumento da ansiedade e pelo agravamento do mal do século: a depressão.

As gerações Z e Y (Millennials) são apontadas como as mais ansiosas, e isso tem motivo. Somados aos fatores financeiros, como o aumento do custo de vida para as novas gerações, a pressão social, a sensação de solidão, as comparações constantes, o vício em dopamina e a enxurrada de informações são apontados como causadores desses resultados preocupantes.

Ansiedade e Depressão são problemas sérios agravados pelo vício em redes sociais.

Nos dias atuais, com a globalização digital plenamente instaurada na sociedade, todas as informações chegam a qualquer indivíduo, assim como seus impactos psicológicos. Com isso, as novas gerações não se preocupam apenas com seus problemas individuais ou de seus núcleos sociais, mas também com questões globais que, muitas vezes, nem estão ao seu alcance. O acesso à informação é uma via de mão dupla; afinal, saber de um problema pode acabar consumindo você e aumentando sua ansiedade. Dessa forma, brasileiros ficam tensos com terremotos em território asiático, enquanto europeus se assustam com a violência em nosso país. Problemas antes exclusivos de quem os vivia estão plenamente acessíveis a qualquer pessoa conectada à rede.

Além disso, as rápidas conexões e interações online desacostumaram as pessoas ao tédio. O vício em dopamina, conhecida como a “molécula da motivação e recompensa”, faz com que a falta de estímulos rápidos pareça tortura para cérebros acostumados à diversão e à felicidade instantâneas. Dessa forma, quando as coisas fogem do planejado ou demoram mais do que alguns instantes, o estresse toma conta de mentes já anestesiadas.

Por fim, ao ter contato com vidas irreais e exageradamente bem-sucedidas nas redes sociais, o jovem cai em uma eterna frustração. Quando observa pessoas da sua idade conquistando casa própria, casando, realizando viagens incríveis e esbanjando felicidade, a tendência é acreditar que qualquer coisa fora desse padrão seja insuficiente, mesmo que a realidade seja exatamente o contrário.

BENEFÍCIOS DA TECNOLOGIA

Nem só de problemas vive a tecnologia. Muito pelo contrário: se utilizada da maneira correta, ela pode ser uma grande aliada do desenvolvimento social. Com tablets e educação interativa, crianças podem aprender de forma mais dinâmica e desenvolver habilidades que imagens estáticas eram incapazes de ensinar.

Outro fator importante é a autonomia dos estudantes. Com o desenvolvimento das IAs, muitos conseguem, utilizando-as como auxílio e não como bengala, aprender em um ritmo diferente do proposto em sala de aula. Plataformas como o Google Classroom já possuem ferramentas próprias voltadas para esse suporte, e as incontáveis videoaulas disponíveis na internet também são muito úteis quando a aula tradicional não atende às necessidades de determinado aluno.

Outro “vilão” que pode desempenhar um papel importante são os videogames. Normalmente apontados como prejudiciais às crianças, os jogos podem ter efeitos muito positivos em seu desenvolvimento. Interações online podem ser a chave para vencer a timidez, enquanto “chefões” difíceis ou “puzzles” complexos ajudam a melhorar os reflexos e o raciocínio. Não à toa, o jogo “Counter-Strike” já se transformou em disciplina em faculdade de medicina.

CONCLUSÃO

Obviamente, a tecnologia veio para ficar, mas é necessário fazer um bom uso dela para que o ônus não supere o bônus. Saber quando se ausentar das redes e como interpretar a enxurrada de posts que nos atinge todos os dias é uma habilidade que as novas gerações precisam desenvolver.

Além disso, para as crianças mais novas, o uso de smartphones e tablets deve ser controlado. Na atualidade, é impossível eliminar completamente esses aparelhos do cotidiano, mas é fundamental não permitir que as brincadeiras de rua sejam substituídas por dedos rolando a tela infinitamente. E, aos pais, cabe não permitir que as telas brilhantes roubem o brilho de seus filhos em momentos únicos de seu desenvolvimento.

Dessa forma, o bom uso das tecnologias será um trampolim para a humanidade, e não uma âncora. Assim, poderemos construir cada vez mais uma sociedade semelhante à humanidade do futuro retratada nos filmes, mas sem os altos prejuízos ao nosso desenvolvimento.

Referências:

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/05/06/estudo-revela-impactos-negativos-do-uso-diario-de-celulares-e-tablets-por-criancas-de-5-anos.ghtml

Acesso à internet na primeira infância mais do que dobrou desde 2015 | Agência Brasil

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2025/11/10/uso-de-ia-no-estudo-ferramenta-exige-cuidado-para-nao-apodrecer-o-cerebro-alerta-especialista.ghtml

‘Geração digital’: por que, pela 1ª vez, filhos têm QI inferior ao dos pais – BBC News Brasil

Gerações Y e Z têm níveis mais altos de ansiedade, diz psicóloga | CNN Brasil

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Artur Tafuri