A substância que promete curar o incurável: Polilaminina!
O “incurável”
Entre todas as lesões conhecidas pela medicina moderna, poucas causam tanto temor quanto as lesões da medula espinhal. Não apenas pela perda dos movimentos, mas pelo fato de, até hoje, serem consideradas incuráveis. Quando cortamos a pele, ela cicatriza. Quando quebramos um osso, ele pode ser alinhado e ser juntado novamente. Mas quando estamos falando do tecido nervoso, estamos falando de um tecido ultra complexo e que há uma capacidade muito limitada de regeneração. Por isso que, quando ocorrem lesões, a sua recuperação não é simples.
Para entendermos a medula espinhal, podemos compará-la com um cabo de internet. Enquanto o cérebro é responsável por gerar os impulsos elétricos que comandam o corpo, a medula espinhal pode ser vista como uma grande via de comunicação, onde dentro dela há fios microscópicos responsáveis por conduzir os impulsos elétricos até o restante do corpo (os axônios). Assim como no cabo da internet, para que a comunicação seja interrompida, não é necessário romper o fio, mas apenas danificá-lo. E com essa falha na transmissão, tudo o que está abaixo desse ponto pode parar de funcionar, logo, quanto mais alto se quebra, mais movimento se perde, justamente porque o comando não consegue mais passar.
É por isso que, mesmo após décadas de avanços médicos, as lesões da medula espinhal ainda são vistas como incuráveis. A comunicação entre o cérebro e o corpo se perde. Porém, mediante a essa dificuldade de reconstruir o caminho que antes era utilizado, surgiu a seguinte pergunta:
Ainda há alguma forma desses impulsos seguirem o seu fluxo? Através de que isso seria feito?
A substância
A resposta para essa pergunta começou a ganhar forma em 1998, nos laboratórios da UFRJ, através de um “acaso” científico protagonizado pela Dra. Tatiana Coelho-Sampaio. Enquanto estudava a laminina, uma proteína que já existe naturalmente no nosso corpo, a pesquisadora tentava desassociá-la em partes menores. No entanto, ao contrário do objetivo inicial, em vez de se dividirem, elas se uniram espontaneamente, criando uma estrutura muito mais robusta e estável. Nascia ali a Polilaminina.
Mas qual a relação dela com as lesões medulares?? Para responder essa pergunta, precisamos voltar ao início da vida. Quando um bebê está sendo formado, ainda no útero, o sistema nervoso precisa “saber” para onde crescer. Nesse estágio, a laminina funciona como um tapete guia ou uma pista, orientando os neurônios a esticarem seus fios (os axônios) até o lugar certo. O problema é que, na fase adulta, essa “pista” desaparece. Quando ocorre uma lesão na medula, o corpo não apenas perde a conexão física, mas acontece uma série de alterações biológicas e químicas que impedem que esse tecido nervoso vá na direção certa, perdendo o caminho por onde os nervos poderiam tentar crescer de novo.
É aqui que entra a Polilaminina!
Na prática, a polilaminina atua de forma dupla: primeiro, ela oferece o suporte físico (como uma ponte) para que o neurônio tenha onde se apoiar e atravessar o vazio da lesão. Segundo, ela fornece o estímulo químico correto, neutralizando os sinais negativos da cicatriz e dizendo aos neurônios que o caminho está livre para crescer novamente.
Com quase 30 anos de pesquisa, a Polilaminina prova que a chave para “curar o incurável” pode estar em replicar a inteligência do nosso próprio desenvolvimento biológico, devolvendo ao corpo adulto as ferramentas que ele usou para se construir pela primeira vez.
Cura o incurável?
Diante de todas as promessas que essa substância traz, surge a pergunta se ela realmente é eficaz. Embora ainda não possamos dar um veredito final para todos os casos, os resultados colhidos até aqui são motivo de empolgação na comunidade científica.
Em uma fase inicial de estudos, realizada inicialmente com cunho acadêmico, oito pacientes foram selecionados, e todos eles precisavam seguir os seguintes critérios: Todos deveriam possuir lesão medular completa (perda total de movimentos e sensibilidade) e precisavam receber a aplicação nas primeiras 72 horas após o acidente. A polilaminina era aplicada diretamente no local afetado pelo próprio cirurgião, aproveitando o momento da cirurgia ortopédica necessária pelo trauma.
Infelizmente, dois pacientes faleceram devido à gravidade geral do quadro clínico. No entanto, os outros seis apresentaram reações surpreendentes. Alguns recuperaram movimentos nos braços, outros retomaram funções parciais nas pernas. Mas o caso que se tornou o símbolo dessa pesquisa é o de Bruno Drummond de Freitas.
Aos 23 anos, após um grave acidente de carro que causou tetraplegia, Bruno recebeu a polilaminina apenas 24 horas depois da lesão. Os médicos acreditavam que ele jamais voltaria a se mexer. Porém, três semanas depois, ele moveu o dedão do pé, um sinal de que a “estrada” nervosa estava sendo reconectada. Após sete meses de dedicação intensa à fisioterapia, Bruno não só voltou a andar, como recuperou sua total independência! Hoje, aos 31 anos, ele é a prova viva do potencial dessa descoberta brasileira.
Expectativas
O sucesso de Bruno e dos outros voluntários acendeu uma luz de esperança que ultrapassou os laboratórios da UFRJ. No dia 5 de janeiro de 2026, a ANVISA autorizou oficialmente o início dos estudos clínicos de Fase 1, o que significa que a polilaminina sai do campo experimental restrito e entra na estrada da regulamentação oficial.
Esta nova etapa, desenvolvida em parceria com o laboratório Cristália, foca na segurança do medicamento, garantindo que ele possa ser aplicado em um número maior de pessoas sem riscos colaterais. A ideia é que, após todas as fases de testes, o tratamento possa ser integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), democratizando o acesso a uma tecnologia que é referência mundial. Embora o foco atual seja em lesões recentes (agudas), a ciência já busca entender como a polilaminina pode ajudar quem convive com lesões crônicas há anos, tentando romper cicatrizes antigas e reconstruir caminhos que o tempo parecia ter fechado.
Ainda há um longo percurso de estudos pela frente, mas a polilaminina prova que o Brasil está na linha de frente de uma revolução que promete redefinir o impossível. A cura pode não ter chegado para todos hoje, mas a ponte para ela está sendo construída agora mesmo, em solo brasileiro.
Fontes:
Entrevista com Bruno e Dra. Tatiana, a cientista que fez tetraplégico andar