Entrevista: Cristiano Gomes Casagrande, Faculdade de Engenharia Elétrica da UFJF

O professor Cristiano Gomes Casagrande é doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) na área de Sistemas de Iluminação Pública, tendo sua pesquisa particularmente desenvolvida sobre os temas de Fotometria Mesópica e Gestão da Iluminação Pública. Graduado em Engenharia Elétrica em 2006, e com mestrado em Sistemas Elétricos de Potência em 2010 pela mesma instituição, concluiu seu doutorado no ano de 2016, quando assumiu a coordenação do LEENER, Laboratório de Eficiência Energética da UFJF, universidade na qual é professor exclusivo desde 2015. Entre as disciplinas ministradas pelo docente, estão Eficiência Energética, Eletrotécnica Industrial, Instalações Elétricas e Circuitos Elétricos Lineares, atuando nos cursos de Engenharia Elétrica, Engenharia Civil e Arquitetura. Já trabalhou anteriormente como docente e pesquisador de outras instituições, como o Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), além de integrar a equipe de especialistas do CONFEA para avaliação de cursos de graduação em Engenharia Elétrica. Autor do livro “Iluminação Pública: Panorama, Tecnologias Atuais e Novos Paradigmas”, Casagrande tem atuação e experiência em atividades de pesquisa principalmente nas áreas de Eficiência Energética, Iluminação, Fotometria, Fontes Alternativas de Energia e Educação em Engenharia.

 

 

Qual é hoje sua principal linha de projeto/pesquisa? Poderia falar mais sobre?

Minha linha de pesquisa atualmente está mais concentrada em iluminação pública, apesar de que eficiência energética sempre foi a minha área, o que engloba eficiência nos usos finais de energia, nas indústrias, na iluminação, além de também abordar fontes alternativas e sustentáveis de energia, que são áreas que sempre me interessei. Atualmente estou trabalhando mais com iluminação, particularmente iluminação pública. Meu doutorado, por exemplo, foi na área de fotometria mesópica, que é um estudo onde é considerada a resposta da visão humana em condição de baixa luminância: quando estamos numa condição que a luminosidade é menor, temos uma resposta visual diferente de quando o ambiente está muito iluminado. Nesse segundo caso, chamamos de visão fotópica, quando há uma alta percepção das cores e as células responsáveis pela visão são os cones, pois a pupila fica mais contraída e a luz é focalizada na área central da retina, onde os cones se localizam, permitindo então um bom reconhecimento das cores. Por outro lado, na visão escotópica (quando o ambiente está muito escuro), a pupila dilata e a luz incide em uma área maior da retina, entrando em contato com mais bastonetes, que são células mais sensíveis para captar pequenas quantidades de luz e não reconhecem cores, motivo pelo qual, em um ambiente escuro, as cores para nós não ficam bem definidas. No meio termo, temos a visão mesópica, onde há cones e bastonetes sendo estimulados, o que faz com que a sensibilidade para os diversos comprimentos de onda da luz (cores) seja diferente. Por exemplo, na visão fotópica, a sensibilidade é maior para cores entre o verde e o amarelo; já na visão mesópica, essa sensibilidade torna-se maior na região do azul, então a percepção fica diferente para diferentes tipos de luz. Na iluminação pública, nos deparamos normalmente com a condição mesópica, então se nesse ambiente há uma lâmpada que emite muito amarelo e pouco azul, naturalmente a luz que você está enxergando de fato não é a mesma que um aparelho calibrado na visão fotópica está medindo, ou seja, você enxergaria menos do que é medido, e, por conta disso, deve-se levar em consideração a condição mesópica para fazer uma correção das grandezas fotométricas.

 

O que te motiva a pesquisar/estudar sobre esse assunto?

O tema da visão mesópica na iluminação pública é um tema atual, e a norma brasileira não menciona isso. A norma americana, na versão de 2014, começou a mencionar, mas mesmo assim a consideração da visão mesópica não é obrigatória, e sim apenas uma recomendação. Os países europeus já estão mais adiantados nisso, alguns da América Latina também, como a Argentina, que já estudam a visão mesópica há um tempo. Se for pesquisar alguma literatura ou documentos a respeito do tema no nosso país, não será encontrado quase nada, enquanto na Europa há bastante estudo sobre isso. Essa defasagem do nosso país nessa área me motiva a dar uma contribuição com relação a esse assunto. Há previsões de mudança na norma brasileira de iluminação publica (NBR 5101) e há uma expectativa de que esse tema seja ao menos mencionado. Além disso, sempre me interessei por eficiência energética e iluminação particularmente, mas não tive a oportunidade de abordá-la no meu mestrado, onde pesquisei sobre sistemas elétricos de potência. No doutorado então, surgiu a oportunidade de mudar de área e vir a estudar isso; focalizar o meu estudo em iluminação e fotometria.

 

Atualmente, o senhor é coordenador do LEENER. Por que se interessou em participar desse projeto?

Minha história com o LEENER é bem antiga: participo dele desde a graduação por sempre me interessar em eficiência energética. Enquanto eu fazia engenharia, por estudarmos muita coisa, normalmente não sabemos com o que nos identificamos: eletrônica, potência, máquinas, instalações, automação; e no final da minha graduação, por gostar muito da área de fontes alternativas de energia, procurei o professor Danilo para me orientar no TCC, que era o coordenador do LEENER desde a sua fundação. Ali eu comecei a me envolver com o laboratório; fiz o TCC sobre fontes alternativas, particularmente sobre o uso de biodiesel na geração de energia elétrica, e logo em seguida, depois de formado, houve a oportunidade de trabalho como engenheiro num projeto da Eletrobrás em parceria com a UFJF, onde o LEENER estava diretamente envolvido nesse convênio, e, assim, fui convidado pelo professor Danilo para ser gerente do projeto, o engenheiro responsável por ele aqui em Juiz de Fora. Dessa forma, o envolvimento com o laboratório só aumentou, durando por volta de dois anos e meio. Ao me tornar professor exclusivo da UFJF, o professor Danilo me convidou para coordenar o laboratório, o que acredito que, para ele, seria uma sucessão natural, por eu já ter trabalhado muito tempo no laboratório e conhecer bastante sobre o trabalho. Foi um imenso prazer poder continuar trabalhando nessa área e poder ficar como responsável pelo laboratório.

 

Ainda sobre isso, qual a importância do laboratório para um graduando em engenharia elétrica?

O envolvimento com as áreas de eficiência energética, fontes alternativas e sustentabilidade é imprescindível para a formação de um engenheiro eletricista, pois são temas de interesse para a engenharia de modo geral, e o aluno então tem muito a ganhar se aprofundando nesses assuntos. O LEENER tem uma caracterísitca importante que é o fato de ser um laboratório aberto, ou seja, não foca em apenas uma linha de pesquisa, dando liberdade ao aluno de implementar alguma ideia com os recursos do laboratório, ampliando e aprofundando os seus conhecimentos. Infelizmente, por estarmos passando por um momento difícil no país, não temos tantos recursos quanto tínhamos no passado. Antigamente o laboratório contava com muitos bolsistas, chegando a ter mais de 20 alunos, enquanto hoje em dia há bem menos colaboradores. O LEENER possui uma atuação muito forte em projetos de extensão, que é levar o conhecimento produzido na universidade para a comunidade. Já fizemos diversos cursos de capacitação em escolas, hospitais, empresas, prédios públicos, tanto aqui em Juiz de Fora quanto em cidades vizinhas, tendo uma atuação notável na região, todos voltados para eficiência energética. Além disso, também foram feitos projetos para comunidades carentes, como por exemplo, projeto de aquecedor solar de garrafa PET para uma família de baixa renda que não possuía muito recurso para gastar com a conta de energia. Dessa forma, o LEENER tem uma importância tanto acadêmica quanto social, o que é imprescindível para um engenheiro.

 

Quando você se formou, chegou a exercer a profissão como um engenheiro eletricista? O que te motivou a entrar no meio acadêmico e se tornar um professor?

Ao me formar, não tive o interesse de entrar no mestrado. Estava coberto pela sensação de alívio de ter me formado e queria exercer a profissão. Lembro, nessa época, de diversos colegas estudando muito para matérisa do mestrado, e, ao ver aquilo, percebi que não era o que queria naquele momento. Sabemos o quão pesado é o curso de engenharia elétrica, então, naquela época, queria cair no mercado para dar uma respirada. Dessa forma, participei de alguns processos seletivos de algumas empresas e tentei alguns concursos. Além disso, eu já dava aulas de Física e Matemática para ensino médio e cursinhos pré-vestibular na época. Logo após isso, como eu já disse, fui convidado pelo professor Danilo para participar, como engenheiro, de um projeto da Eletrobrás em convênio com a UFJF, o que me permitia também continuar dando aulas. Nesse meio tempo, comecei a repensar sobre o mestrado, pois eu estava trabalhando nesse projeto dentro do galpão do mestrado da elétrica, e, por conta disso, achei ser o melhor momento para fazê-lo, pois poderia me arrepender no futuro. Ainda assim, fiz o mestrado sem pensar em me tornar um professor universitário, mas sim pra agregar conhecimento e melhorar minha formação, o que é importante mesmo em um trabalho numa indústria, que não seja estritamente acadêmico. Terminando o mestrado, surgiu a oportunidade de me tornar professor do CES/JF (Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora) no curso de engenharia de telecomunicações, que hoje é engenharia elétrica, para ministrar as matérias de Circuitos Elétricos II e Controle, o que me fez sentir algo diferente, diferente até mesmo das aulas para ensino médio e pré-vestibular que eu já tinha experiência. Ao terminar o mestrado, em 2011, tive a oportunidade de também ser professor substituto na UFJF até 2013. Em 2012, entrei para o doutorado e bati o martelo, decidindo que queria mesmo seguir na carreira de professor universitário e pesquisador.

 

 O que você diria para um estudante que está terminando a graduação em Engenharia Elétrica e está em dúvida sobre qual carreira seguir (acadêmica ou mercado de trabalho)?

Como dito, na minha trajetória eu não sabia bem o que queria. Quando nos formamos, temos uma insegurança natural a respeito do que sabemos, e temos a sensação que não sabemos nada, mesmo tendo estudado bastante; mas isso é algo que você irá adquirir com o tempo. Ninguém lembra tudo de cabeça, mas se for trabalhar em qualquer área, saberá onde buscar o conhecimento necessário, seja no seu material, nos livros, nos slides etc, então, o recém formado estará sim preparado para atuar em qualquer área. Agora, com relação à dúvida sobre o mercado de trabalho ou meio acadêmico, a primeira coisa que o estudante tem que pensar é naquilo que ele gosta, e não só pensar no retorno financeiro, mas também no prazer que terá com aquilo que escolher, porque são ambientes bem diferentes. Você tem que ver o seu perfil e aquilo que realmente gosta, pois eu não posso falar o que é melhor, cada um terá que fazer a própria escolha. Há muitas áreas de atuação para um engenheiro eletricista, há diversos setores no mercado de trabalho, não só a área de pesquisa, que foi a que eu escolhi e que hoje eu não trocaria. Porém, hoje o Brasil está passando por um momento um pouco mais complicado, e a oferta de emprego no mercado de trabalho está um pouco mais restrita, então a gente observa muito aluno recém formado que faz mestrado, e, infelizmente, muitos deles não têm o perfil acadêmico, fazem só por falta de oferta de emprego, o que não é bom, pois a pessoa fica trabalhando em algo que às vezes não é o que ela gosta. Então, é importante ter um pouquinho de paciência, de que a sua hora vai chegar. Mas mesmo para quem não tem o perfil acadêmico, acho que o mestrado é bom, pois são apenas dois anos e irá te agregar mais conhecimento e incrementar sua formação, terá um diploma a mais e um nível a mais, digamos assim, de escolaridade, o que acaba sendo útil na hora de obter um emprego. No caso do doutorado, recomendo só para as pessoas que realmente querem seguir a área acadêmica, pois é algo mais longo e desgastante, enquanto o mestrado é bem mais rápido. Então, se o aluno se formou e não conseguiu emprego, acho válido tentar o mestrado, pois irá investir mais na sua formação e, terminando-o, você poderá decidir qual rumo tomar, que foi o que aconteceu comigo.